Cândido Guerreiro

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Auto das Rosas de Santa Maria

1940 – Teatro

(Editor: Eduardo João da Silva, Faro – 2ª Edição, 24 págs. - 1947)

**************

Do rochedo de Sagres, a mãe de Gil

Eanes olha o mar ansiosa e longamente.

Depois dum curto silêncio:

Ondas do mar azul,

Vagas de oiro e cristal, ondas de anil,

Não fostes vós, de certo,

Mas o Mar Tenebroso, o mar deserto,

Perpétua lama fétida e paúl,

Que tragou o meu Gil.

(Entra o Infante D. Henrique. A mãe

de Gil Eanes, voltada para o mar,

não dá pela presença dele, que a vê

apenas de perfil e estaca a ouvi-la)

Há quantos meses, quantos! se embarcou

Em tão má hora,

E nunca mais voltou!

Para a minha saudade há mais de mil;

Porém na cisma do Senhor Infante,

Na chama da loucura que o devora,

Talvez tenha partido há um instante…

E não lhe dói

Que eu chore e me atormente e me consuma…

Bem podia o meu filho – era um herói! -

Expirar entre lanças num combate,

Envolto pela túnica escarlate

Do próprio sangue, mas em glória suma…

Ou, marinheiro audaz, tivesse êle antes

A morte que convém aos navegantes,

E, amortalhado num lençol de espuma,

Os funerais soberbos dum naufrágio!

E tivesse os relâmpagos por tochas,

Os reponsos rezados pelo vento

E a piedosa velada destas rochas!

Mas uma voz, cá dentro, de presságio,

O grito das gaivotas, agoirento,

O reboar profundo das cavernas

Bem me anunciam que ficou sepulto

Nessas longínquas solidões eternas…

Oh, não podia, não! ficar inulto

Esse pecado horrendo – pretender

Devassar o que Deus quis esconder

Ao miserável, pobre olhar humano

E para sempre ficará oculto

Na cortina de brumas do oceano,

Além das quais, se alguma vida existe,

É sòmente a de monstros infernais!

Ai de mim! ai de mim! ai, sina triste!

Nunca mais, ó meu filho, nunca mais

Beijarei a tua face juvenil

E nem posso florir-te a sepultura!

- Filhas de Lagos, desoladas mães

Dos leais companheiros do meu Gil,

Chorai comigo a grande desventura!

O INFANTE, aproximando-se, re-

conhecendo a mãe, e dirigindo-se ao

cosmógrafo e a um escudeiro velho,

que entram nesse instante:

A mãe de Gil Eanes. .

Á mãe com severidade:

A que vens?

A MÃE, enleada:

A buscar o meu filho…

O INFANTE, com ironia:

O devorado

Dos monstros de que falaste há pouco?

A MÃE, com humildade:

Meu Senhor, perdoai, se vos enfado…

É que tive esta noite um sonho lindo…

O INFANTE, sombrio:

E por causa dum sonho, por ventura

Insensato, estivemos nós ouvindo

Más palavras e acusavas-me de louco…

Sê-lo-ei, na verdade, que a loucura

É labareda, às vezes, e alumia

A sombra formidável da lonjura,

E é uma voz sagrada, – é profecia…

Mas conta-nos o sonho.

A MÃE, que pouco a pouco se anima:

Da minha alta açoteia, que domina

A baía de Lagos magestosa,

Sonhei que via um temporal medonho

Rugindo ao largo, em cólera assassina…

Porém, cortando a marcha tenebrosa

Do enorme turbilhão, que mais avisto?

- O vulto airoso duma caravela,

E, rúfila, a sangrar em cada vela,

E, a derramar  à volta tons vermelhos,

A cruz de Cristo!

- Senhora! Mãe de Deus! Salvè, Rainha,

Mãe de misericórdia! Ó vida minha!

- Era o meu Gil o Mestre dêsse barco!

Senhora das Angústias! de joelhos

E de mãos postas, eu rezei o terço…

O INFANTE, interessado:

E depois? e depois?

A MÃE, num enlêvo, alheada:

Súbito, um arco

De sete côres refulgiu no ar…

Era um sinal de paz e de bonança:

Desfez-se a tempestade em chuva mansa…

O INFANTE, ansiosamente:

E a caravela?

A MÃE, sorrindo em êxtase:

Transformou-se em berço

Que a Virgem-Mãe desceu a embalar…

Vinha deitado nêle uma criança

-O meu filho, tal qual, em pequenino-

E, num prodígio do poder divino,

O berço veio aqui parar, e Sagres

Ficou marcada então para o mais alto,

O mais famoso e singular destino

E foi sagrada terra de milagres…

O INFANTE:

E depois?

A MÃE:

Acordei num sobressalto,

E logo, sacudida de alvorôço,

Pulei do catre e, mal vestida, presta,

Porque vinha esperar o meu menino,

Meu Gil Eanes tão gentil e moço,

Vim para a rua. O coração em festa,

Não sofrendo incertezas ou demoras,

Nem sequer reparei que era noite

E que as portas da vila àquelas horas

Estariam fechadas e guardadas…

Mas por acaso há mãe que não se afoite

A romper cadeados e ferrolhos

Pelo seu filho? Uma aflição materna

Derriba até muralhas ameadas…

Reduplicada em mim a luz dosolhos

Naquela escuridão, fui à poterna.

Para não alarmar as sentinelas,

Cautelosa e subtil, passei descalça

Aquela porta falsa

Chamada da Traição…

Sob o esplendor das lívidas estrêlas

E de ânimo viril, intemerato,

Sem medo a lobo, nem a javali,

Sempre a direito, vim cortando o mato.

Quando cheguei a Guadalupe, vi

Uma estrêla voar em amplidão

E envolver a ermidinha num clarão…

Ajoelhei e descansei ali

O tempo escasso de rezar um credo.

E, ensanguentando os pés até aqui,

Aqui me encontro desde manhã cedo..

Ai de mim! ai de mim! Foi tudo em vão!…

Foi um sonho falaz e malfazejo…

O INFANTE:

Sonhaste um sonho tão formoso e ledo:

Porque duvidas,coração ingrato?

A MÃE, num desânimo:

Senhor, se eu olho o mar, e nada vejo -

É que o sonho o gerou o eu desejo…

O INFANTE, com segurança:

O teu sonho não foi tão insensato

Como, antes de o contares, o supus.

Sonho-revelação, sonho de luz,

Aprouve a Deus dizer por tua bôca

Que abençoa e sorri à minha emprêsa

De espalhar o Seu nome pelo mundo,

Pronunciado em língua portuguesa!

O VELHO ESCUDEIRO, que tem

ouvido o diálogo, sombrio:

Emprêsa inútil, temerária e louca,

Não a domina a fé, porque no fundo,

O que a move, senhor, é a avareza,

É a cobiça com a garra adunca

Fingindo acarinhar. É o ladrão

Que se disfarça em hábito de monge…

O INFANTE, repreensivo:

Os anos deram-te ousadia à língua…

O ESCUDEIRO:

Mais do que os anos, a afeição que nunca

Andou tão desvairada, no receio

Por vós, Senhor…

O INFANTE:

Por mim? Por que razão?

O ESCUDEIRO:

Superstição talvez; porém, à míngua

(apontando para o “Livro de Marco Polo”)

Desse livro de fábulas, eu leio

No vôo dos corvos crocitando ao longe,

No círculo que traça

Sôbre as névoas translúcidas a lua,

Na sombra que rasteja pelo solo,

Quando uma núvem nas alturas passa…

O INFANTE, interrompendo, irónico:

Livro mais certo que o de Marco Polo…

E que lês nessa bíblia? Continua…

O ESCUDEIRO:

Leio sómente para vós – desgraça…

O INFANTE:

Temor dum velho de cabeça tonta…

O ESCUDEIRO, com intenção:

Também sonhei…

O INFANTE:

E o que sonhaste? Conta…

O ESCUDEIRO, convicto:

Pois sonhei que num cácere nefando,

Entre infiéis, um príncipe cristão

Havia de morrer, e, por afronta,

Por sacrílego insulto, abandonado

De justiça, de amor, de compaixão,

Sem vísceras, chagado e miserando,

Seria o seu cadáver pendurado

De entre as ameias dum castelo moiro…

O INFANTE, ante a suspensão do

escudeiro:

Quem era, dize, o malaventurado?…

O ESCUDEIRO, olhando fixamente

o infante:

Esse mártir seria o vosso irmão,

Sua Mercê o Infante D. Fernando…

O INFANTE, num sobressalto,

benzendo-se:

Que para longe vá o teu agoiro!

A MÃE, num terror:

Dois sonhos! Qual será o verdadeiro?

O INFANTE, irritado:

E a que vem uma tal figuração

Dêsse martírio e dêsse cativeiro

E umas coisas assim tão descabidas?

O ESCUDEIRO, com firmeza:

A prevenir maiores desventuras

E a pedir-vos que ouçais os meus conselhos.

Podeis poupar ainda muitas vidas…

Olhai que vos suplicamde joelhos

Mães, irmãs e noivas doloridas…

Vêde que preparais aos portugueses,

Com as navegações em que sonhais,

Novos desassossêgos e revezes…

E, para mais,

Podeis exercitar vossas façanhas,

Expulsando a Mafoma das Espanhas.

Se quereis propagar a fé cristã,

Tendes o moiro de Granada à porta…

Para que teima tal e tal afã

Em mandar gente e barcos para o Sul?

É fraudar-nos emhomens e fazenda,

Pois que, além do horizonte, o mar azul

Transmuda-se num charco ou terra morta…

O INFANTE:

E acreditas, ó velho, numa lenda

Boa para crianças? Tu sonhaste…

Tiveste um pesadêlo. Deus afaste

De nós teu sonho mau!

Mas eu também sonhei e sonho agora…

Sonho que Portugal é uma nau

Com bandeiras de púrpura nos mastros,

Ligeira, empavezada, mar em fora,

Que doma as águas, que namora os astros,

E navega à conquista dum império!

-África Portentosa! o teu mistério

É deste povo e fá-lo-á gigante,

Morram embora príncipes, embora!

Por um pouco de argila transitória,

A eternidade de uma Pátria ovante,

Radiosa, magnífica de glória,

Egrégia e triunfal!

África Portentosa, és Portugal!

Começamos em Ceuta: àvante! àvante!

O ESCUDEIRO, à parte:

É um verbo profético ou delira?

O INFANTE:

Dizes que o mar acaba além num charco…

Velha mania, estúpida mentira!

O mar criou-o Deus, mas para o barco.

Líquida estrada, vai de polo a polo,

E é um seio materno e é uma lira!

Embala os continentes no seu colo

E canta, por milénios, o bendito,

E ensina-te a rezar,

Com o sagrado cântico soturno…

A MÃE, à parte e comovida:

Jesus! Santa Maria! eu acredito

No Infante bruxo e grande taciturno!

Gil Eanes, Senhor! há-de voltar!

O INFANTE, para o escudeiro:

Velho medroso, pássaro nocturno,

Tu não lhe entendes o trovão, o grito,

Não entendeste nunca a voz do  mar,

A aliciante voz que nos convida

Ao frémito, à alegria

De o possuir, de o ter a palpitar,

Beber-lhe a fôrça, a exaltação da vida!

(Pausa)

A grande voz do mar! a sinfonia

Dessa orquestra em que as ondas são harpas

(Para vós outros um rumor confuso,

Um bárbaro clamor tumultuário)

Eu só a entendi destas escarpas

E só a sei amar, – porque a traduzo, -

Nêste rochedo augusto e solitário!

É de aqui que uma sombra se projecta

Em noites de ardentia – violeta

E luar liquefeitos – e me assombra

E treme e flue no lucilante abismo…

- Cavaleiro sem mácula ou asceta,

Quem é o vulto que a desenha? Cismo,

E reconheço a minha própria sombra…

Porém nas noites invernais e escuras

Ela sobe e converte-se em penumbra…

Depois é luz, dilata-se, deslumbra,

Alto farol de gerações futuras…

Dirigindo-se ao escudeiro:

Tu que tens numa núvem que se afasta

Rápida, inconsistente e casual,

No círculo da lua ou vôo das aves

Uma visão fatídica, nefasta

E vaticínios trágicos e graves,

O que verias tu neste sinal?

O ESCUDEIRO, vencido:

Um sinal de que Deus vai operar

Por vós, Senhor, e pelos algarvios

Grandes feitos na terra e sôbre o mar…

O INFANTE:

Tenho essa fé

Dirigindo-se à mãe:

E tu tem confiança,

Que Gil Eanes voltará em breve.

A MÃE, pondo as mãos e erguendo-as:

Louvado seja Deus!

O INFANTE:

E aos mais navios

Que hão-de partir de aqui…

A MÃE, interrompendo:

Que Deus os leve

E traga em mar leal e de bonança!

O INFANTE:

Teu filho há-de ensinar as grandes rotas

De outras nações e o curso de outros rios…

UM COSMÓGRAFO:

Senhor, eu vos conjuro a que deis tréguas

Ao vosso imaginar… O mar avança,

Creio-o, sim, como vós, léguas e léguas,

Mas há, nessas paragens tão remotas,

Monstros não digo, – temporais bravios…

O INFANTE:

Que sabeis vós de regiões ignotas?

O COSMÓGRAFO:

Quanto o cosmografia nos ensina:

Que o mundo é uma esfera, e, no equador,

Implacável, o sol morde e calcina,

Faz da terra um deserto, um areal

Sem sombra de palmeira ou uma flor

A dar sinal de bendição divina,

E põe no mar um férvido cachão

Maior que o do mais rijo vendaval.

Se sôbre a terra a vida não germina,

Sai das ondas tão cálido vapor

Que, formando a perpétua cerração

Dum nevoeiro insidioso e mole,

A luz devora, lívido e traidor.

Para que houvesse ali navegação,

Terei antes que apagar o sol.

Bem se diz: – «Quem passar o Cabo Não

Ou voltará ou não».

Que podemos dizer do Bojador?

O INFANTE:

Cosmógrafo! cessai; que tenho ouvido

Com surprêsa cair dos vossos lábios

Os êrros crassos do escudeiro velho,

Porém indignos do menor dos sábios

Que à minha volta tenho reunido

Para melhor, mais lúcido conselho.

Nenhum saber mais alto haveis colhido

Dos vossos venerandos alfarrábios?

O COSMÓGRAFO:

Que os barcos que ali vão se somem,

E sei que o mar Atlântico não é,

Como o Mediterrâneo, um doce lago…

Poder de Roma e génio de Cartago

Jamais se abalançaram a tamanhas

Aventuras…

O INFANTE, apontando um livro dos

Evangelhos:

… «E disse Jesus: -Homem,

«Tiveras tu – como direi? – a fé,

«Tanta como um grãozinho de mostarda,

«E poderias remover montanhas…»

O Deus de Portugal, o Deus de Ourique

Tem Gil Eanes sob sua guarda!

Apontando para a Mãe:

Nós ambos temos fé.

O COSMÓGRAFO

E, sem embargo,

Eu nada enxergo nesta névoa parda,

Nada…

UM ESCUDEIRO MOÇO, entrando alvoraçadamente:

Senhor Infante D. Henrique,

Aproam velas, branquejando ao largo,

Com rumo a êste cabo…

(Olham todos ansiosamente para o mar).

O INFANTE, à Mãe:

Olha!

O ESCUDEIRO VELHO, encantado:

É verdade!

O COSMÓGRAFO, persistindo na dúvida:

Barco talvez dalgum pirata moiro…

O INFANTE, replicando a sugestão:

Impossível!

O ESCUDEIRO MOÇO, com enlevo:

Parece a caravela…

E que linda que vem, na claridade

Desta manhã de Junho!

O INFANTE, num grito de triunfo:

É ela! é ela!

A MÃE, chorando de alegria:

Traz o meu filho… É êle! é êle!

O INFANTE:

É êle!

A MÃE, caindo de joelhos e mãos

postas:

Graças, Jesus! Senhora da Piedade!

O ESCUDEIRO MOÇO:

Com êste vento de feição que a impele,

Olhai, não tarda aí, no ancoradouro…

O INFANTE, num transporte:

Bendito seja Deus!

TODOS, excepto o cosmógrafo, em côro:

Bendito seja!

O INFANTE:

O mar profundo, ó meu irmão, troveja

Teu canto gigantesco e imorredoiro,

Rompendo desta nesga do Ocidente,

E acordem ecos na montanha e vale!

E Vós, falésias, ó castelos de oiro,

Tôrres de lenda, ó épicas muralhas

Laivadas por um sangue de batalhas,

Estremecei de júbilo fremente,

No frenético orgulho omnipotente

Da transfiguração de Portugal!

Marinheiro, soldado e missionário,

De aqui vai abalar, e em toda a parte

Ele há-de erguer em cada baluarte,

A mesma cruz que encima o campanário

Da aldeia pequenina que deixou…

Há-de cravá-la ao pé de cada fonte,

Há-de erguer uma ermida em cada monte,

E em toda a acrópole – uma catedral!

- Porque a cruz é a signa imperial

Sangrando no seu rútilo estandarte!

Dirigindo-se ao cosmógrafo:

Haveis falado em Roma: ela passou…

Falastes em Cartago: destruída…

Não passa Portugal, porque marcou,

Porque traçou no seu pendão a cruz,

E a cruz é o lábaro da vida,

E é Portugal agora que a conduz,

Não em suplício, ao Gólgota, nos ombros,

Mas em triunfo, a derramar assombros,´

Desde esta hora semeador de luz,

Portugal! Portugal! meu Portugal!

Levantam-se das tumbas os avós

Nesta manhã genésica e imortal…

Os Mortos mandam: oiço-lhes a voz

Na voz do mar… – Ó mortos sossegai

Na paz dos vossos túmulos, que nós

Hemos de vos honrar!

A MÃE, como extasiada:

Mas reparai:

O ar encheu-se dum aroma e brilho

Que parece que vem Nossa Senhora

Com êles para terra!

O INFANTE, convicto:

E vem, de certo!

A MÃE, pondo as mãos, como sentindo

a presença real da Virgem:

Rosa mística, luz consoladora,

Avè, Maria, cheia sois de graça!

E, ó suave madrinha do meu filho,

Do filho amado que já sinto perto

E há tantos meses, tantos! não me abraça,

Perante vós eu me prosterno e humilho:

Senhora, fôstes vós que mo trouxestes!

Por vós o mar foi um suave trilho

E os vossos olhos maternais, celestes

Foram luar pacífico de neve

E foram resplendor da estrêla de alva!

Por vós, Senhora, ùnicamente salva,

A caravela deslizou mais leve,

De sol vestida sôbre as ondas calmas,

Com sol a bordo para as nossas almas,

Avè, Maria! Tôrre de Marfim!


(Vendo Gil Eanes, que surge à frente

dos MAREANTES, seus companheiros,

e de vários pescadores e mulheres da

região, que naturalmente acorreram

a assistir ao desembarque, corre para

êle e abraça-o)

Filho!

GIL EANES:

Senhora Mãe!

A MÃE:

Meu filho!

O INFANTE:

Enfim!

A MÃE, acariciando Gil Eanes:

Filho! Meu filho!

O INFANTE, impaciente e com inti-

mativa:

Gil! Gil!

GIL EANES:

Meu Senhor!

O INFANTE, numa ansiedade:

Então?

GIL EANES, com alegria:

Dobrei o cabo Bojador!

O INFANTE:

E viste…

GIL EANES:

O mar.. o mar… E continua…

E banha a terra, não árida e nua,

Mas fecunda, com árvores tamanhas

Que parecem de séculos… Montanhas

Azulam-se nos longes, silenciosas…

O INFANTE:

Não encontraste algum vestígio humano?

GIL EANES:

Nem rasto de gazela fugidia.

Nem aves que cantassem descuidosas.

Não vi pègada de homem. Todavia

E porque existe a vida e tumultua

Em seivas, em rosais de todo o ano,

E em cada planta, vitoriosa, estua,

Senhor, para memória dêste dia,

Trago-vos estas ervas, – tão viçosas

Como se eu acabasse de colhê-las…

Que lindo nome têem! Santa Maria

Dignai-vos, meu Senhor, de recebê-las.


O INFANTE, tomando-as e aspiran-

do-lhes o perfume:

Rosas! com tal aroma! Rosas! «Rosas!

«Bem me falavam ondas rumorosas,

«Bem mo dizíeis vós, altas estrêlas!…

 

«Rosas de além do mar esplendorosas!

«Ide a Santa Maria, ido oferecê-las,

«E – Talent de bien faire! – entretecê-las

«Nas suas sete espadas dolorosas…

 

«Um Portugal Maior! – Santa Maria!

«Sirva o teu nome de pendão e guia

«De glórias, de façanhas e aventuras!

 

«Seja o teu nome e letra inicial

«Do indouro e lusíada missal,

«E as rosas servirão de iluminuras ..»


Vão saindo lentamente, enquanto, fóra, se ouve,

na toada melancólica e grave da região, o coro da

SALVÈ-RAINHA.

 

PANO


 






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