Em Forli (parte 1)


EM FORLI

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No esbelto campanário do convento.

Sôbre o ponto mais alto da cidade,

Um sino dobra, compassado e lento…

– Há ordens de presbítero – A piedade

Pelos que se amortalham nesta hora,

Em votos de perpétua castidade.

Chamou ao templo a multidão. Lá fora

Abril é uma rosa… O passaredo.

Alarmado, interroga:  – «Por quem chora

«O sino grande desde manhã cêdo?

«Arrulham pombas sôbre aquela tôrre;

«O musgo veste os troncos do arvoredo;

«No vale, o rio entre salgueiros corre

«E faz rendas de neve em cada açude;

«Jámais alguém na primavera morre…»

E os álamos, de hierálica atitude,

E oláias e um pinhal, subindo a serra

– Um cortejo em louvor da juventude,

– Para cobrir e aveludar a terra,

Tecem de setim verde um novo manto,

E, aqui e ali, nos milheirais, descerra

Suas pálpebras de oiro o helianto,

Olhando o sol e as águas pelos astros…

– Os novos sacerdotes, entretanto.

Revestidos só de alvas e de rastros.

Mãos e faces dum lívido marmóreo,

Oram beijando as lágeas de alabastros…

– E o sino vai dobrando, merencório…

– Aquele dobre os corações obumbra;

E, de oiro e gemas raras, o cibório.

Cândido Guerreiro, 1931 (Continua…)

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Filed under gente, Património

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