Censura ou Orgulho?


Esta obra do pintor Luís Furtado foi considerada fálica no critério de um galerista e, desde então, não foi exibida…

O criador não é exclusivo dono da sua criação, mesmo que trabalhe apenas para si, ao expôr-se partilha a sua visão com muitas outras. É na partilha de emoções que se impõe o respeito por todas as individualidades, e suas crenças.

Uma Exposição é um produto colectivo, do autor e do galerista que lhe abriu as portas. No caso louletano, as Galerias Municipais prestam um precioso apoio às Artes e assim contribuem para o seu fomento e divulgação. Têm públicos heterogéneos, de Coleccionadores a Jovens Estudantes das nossas Escolas e são frequente recurso educativo para os docentes das áreas artísticas. Esta especificidade, a não ignorar, promove a obra plástica de autor junto de públicos que estão a formar o gosto e se juntam, no mesmo espaço, com os entendidos e criadores…

Foi isto, que na polémica recente, noticiada na blogoesfera algarvia, entre o pintor Paulo Serra e a galerista Rosário Lopes foi ignorado dando origem a uma reacção de moral reprovável por parte do primeiro que se considerou “censurado” quando não foi capaz de considerar uma das componentes de uma exposição, para mim a principal: O Público!

Se ter comportamento orgulhoso de “Prima Donna” é próprio dos artistas, ser humilde e responsável pelo próprios actos também lhes deve ser próprio. Foi criada uma “tempestade” que o próprio criador tem a obrigação de desmontar.

A minha solidariedade vai por inteiro para a Directora da Galeria do Convento do Espírito Santo que agiu como co-autora da Exposição, explicitando como lhe compete, os critério de admissão neste espaço público que lhe está confiado. Rejeito os aproveitamentos abusivos deste desentendimento que nada teve de político mas sim de estético e de bom senso.

14 comentários

Filed under ssebastiao

14 responses to “Censura ou Orgulho?

  1. Joao Martins

    Caro professor Almeida. Discordo em absoluto do seu post. Como sabe o campo artistico para existir na sua autonomia relativa teve que se autonomizar do poder político e religioso para poder produzir livremente as suas criações. Era a igreja, em primeiro lugar e depois a aristocracia mediaval que definiam o que poderia ser arte ou não. Isto que aconteceu em loulé não é mais que um retrocesso no campo da arte, da produção artistica e na liberdade de interpretação de uma obra de arte que concerteza não é a mesma no criador e nos receptores. E sim, as obras foram censuradas. Fere susceptibilidades. Fere concerteza. Lembra-se da figura do Papa com preservativo no nariz? O museu de arte erótica de Amesterdão poderia expor as suas obras em Loulé? Consulte-o no youtube e diga de sua justiça. Os seus valores religiosos e morais ou os do senhor presidente não podem definir que obras devem ser expostas. Sobretudo depois de terem acordado com o artista na feitura da exposição. Lamentável também a censura à obra que apresenta no seu post, de Luís Furtado. PS: Não vejo de que modo a blogosfera poderia fazer aproveitamento político da situação pois não vejo por aqui nenhum bloguer candidato a coisa nenhuma. E para mais foi o Observatório do Algarve (exemplo a seguir para o jornalismo local) que primeiro avançou com a notícia.
    Os melhores cumprimentos.
    João Martins

  2. Insisto João, que o que se passou foi apenas divergência quanto à selecção das peças a exibir e que não existiu qualquer influência dos gestores autárquicos neste processo, tão somente houve o cuidado de não ofender o público habitual daquele espaço, por parte da sua responsável que é por todos avaliada (isso sim pode ter contado)!
    Os aproveitamentos ou explorações das potencialidades políticas dos factos podem ser exercidos independentemente dos seus agentes serem ou não candidatos a alguma coisa. Eu, tendo essa mácula, respeito a justiça e a verdade; reconhecendo que toda a mostra institucional tem um comissariado que a apadrinha e paga, reconheço ser lhe devida decisão, se possível consensual.
    Aliás, exceptuando os casos em que o autor aluga o espaço e produz a divulgação, as exposições em geral requerem candidatura e apresentação prévia dos trabalhos a expôr. Estes dois foram apresentados depois dos outros 15! A responsável da Galeria explicou o seu ponto de vista mas o autor decidiu recolher tudo sem dialogar… o que pode ser tido como Auto-censura (!?) e tratou de divulgar o sucedido, como omitiu muitos factos, semeou dúvidas!

  3. Serpa

    Para começar a obra do Luís Furtado não chocava ninguém. E se foi censurado, então isso passa a ser um acto de demência moralista de 2ª classe. Segundo: A santa desenhada que a C.M. diz ser a Senhora da Piedade é nitidamente a de uma Senhora de Fátima ou homólaga. Terceiro: O Presidente da Câmara ficou assustado, pois nunca jamais em Loulé se expôs algo tão explícito no que concerne a sexo. Quanto à imagem e ao palavrão (fere realmente as mentes católicas)mas tudo o que se pinta e se expõe pode ser amado ou odiado. Há também o receio de perder votos e esse sim penso que seria o maior medo do Presidente da Câmara. Se ele soubesse de antemão que não os perderia jamais proibira a exposição. Esta é a minha maneira de ver. Esta exposição teria trazido à galeria de arte que está às moscas semanas inteiras, centenas de curiosos ou admiradores de pintura já que os temas tratados são mesmo de despertar a curiosidade seja-se grande moralista ou ou não. Digo ainda que também compreendo o receio da directora da Galeria. Mas…….. Até amanhã. Serpa

  4. Lima

    Concordo que o maior receio é a perda de votos. É o ficar mal. É o ser olhado na rua pelos moralistas de meia tijela.. olha aquele autorizou aquele horror! Isto é a meu ver o verdadeiro receio tal como diz o Serpa. Viva a Arte nua e crua. Quem não gosta passa à frente. A não ser que as obras expostas não tenham qualquer qualidade e que as mesmas tenham sido feitas por alguém que nunca tenha sido pintor na vida. Lima

  5. só em Loulé

    Santa ignorância!Que incapacidade de lidar com as coisas simples de um modo…simples! Não consigo explicar e muito menos entender tanto afoufo!!!

  6. Galego

    Para o comentador 5; as coisas não são assim tão simples como se julga! Se você estivesse do outro lado e não no de cá, que ninguém nos conhece, não seria assim tão simples, não acha ? Galego

  7. Anónimo

    Vocês andam muito periclitantes em chamar o respectivo nome às coisas……….o beato Batão não deixa que se toque no sacro…. sob qualquer forma… devido à promessa que fez à Mãe Soberana para que nunca mais volte o comunismo a LOULÉ e à Rússia……. não sabiam esta??? o V.A., coitado é nunca se livrará deste trauma!
    NOTA: então não é que SUPOSTOS “vizinhos” (P.N.) do BATÃO deram uma carga de porrada em três militares da G.N.R. no sábado à noite junto ao Salão de Festas!

  8. anónimo

    Nunca tive grande aptidão para escrever, mas vou tentar. Se encontrarem erros não me chamem nomes, há pra aí ministros e jornalistas que falam muito pior que eu… « o sul é um deserto, só serve os sus propósitos, o Museu Grão Vasco fica em Lamego, as impresas de sucesso, a bola não introu, inganou o adversário,» e, etc… com tanto in, chego há triste conclusão que este país não tem out. Desculpem lá este desabafo. Como vosso conterrâneo não quis deixar de vos dar uma explicação sobre este quadro para um melhor entendimento. Há coisas que parecem, mas não são. Este, fazia parte de um lote de 3 que iriam estar à apreciação de um júri, chamaram-me e disseram…« Furtado, não acha que está um bocado fálico para ser exposto neste salão?»… ri-me, “concordei” e retirei o quadro sem lhes dar qualquer explicação, no entanto, não retirei os outros nem me senti censurado… melhor para mim, acabei por ser premiado. O tema em si…a decomposição dos elementos dão origem aos fungos, que, por sua vez originam o aparecimento de cogumelos. Se calhar o mal está na maçã meia apodrecida, nada podia fazer, é a forma dela… os cogumelos pintei-os à minha maneira, e, se repararem bem, no canto superior do lado esquerdo, sente-se parte de um rosto em agonia… ninguém o mandou comer cogumelos envenenados. Quando fizer uma exposição em Loulé prometo-vos que levarei os cogumelos. Será uma retrospectiva da minha profissão. Quanto à polémica instalada, ( a meu ver,) não foi mais que uma “birrinha” do pintor, tentando com isso ganhar protagonismo. Já agora Prof. Almeida, se não lhe der muito trabalho corrija o quadro à sua proporção 50×70, como está, parece mais “fálico”. Um abraço e cumprimentos para todos aqueles que lutam por uma melhor Loulé.

  9. Viva, amigo Luís!
    Dei um toque nas proporções da sua peça, pois verifiquei que na verdade estava mais fálica ainda.
    Protagonismo sim senhor! Penso que se tratou mais disso que de censura… no que à Arte se refere ainda vou sentindo liberdade. De resto, essa é uma matéria em que o conhecimento por estas bandas não abunda.
    Trazer os “cogumelos” a Loulé será um grande evento local, além da qualidade formal e cromática apoiadas por um movimento eruptivo, tornou-se famoso a propósito da polémica recente. Estou certo de que nãp será censurado porque: 1- Aviso sobre o Risco de Ingestão de cogumelos é útil;
    2- Estar hirto é próprio e natural do Homem (com o sem cogumelos).

  10. Joao Martins

    Volto a comentar amigo Almeida porque o ponto de vista do pintor não lhe dá o monopólio da interpretação da relação social que se estabelece com as obras. É claro que em ambos os casos estamos perante a mais que reprovável censura. A grande questão é no caso do pintorLuís Furtado, este convive bem com isso como se vê. O que não é o caso e bem do pintor Paulo Serra. Fugindo à arte propriamente dita e a sua exposição nas galerias, considera o professor Almeida se um qualquer presidente de Câmara lhe ordenasse que retira-se o poema do bocage que aqui colocou aqui há tempos o retiraria para não ofender a sua honra? Consideraria isso censura?
    Cumprimentos de quem não é ministro, nem jornalista mas não se priva do seu direoto democrático de emitir opinião. A bem da própria democracia.
    João Martins

  11. Amigo João, lastimo ter neste particular uma opinião diversa, talvez por achar que há “outros interesses a acautelar” e por conhecer a “prática” das Galerias Municipais e o “feitio” do pintor… Em teoria estaria completamente consigo!
    Fiz a correcção do nome onde me pareceu acertiva, mas o amigo dirá!
    Quanto à questão que me colocou (boa questão!), a resposta é não; este espaço é meu, pago por mim e não subsidiado por ninguém: Nada comparável, portanto!

  12. Joao Martins

    Amigo Almeida, respeito a sua opinião, mas mantenho claramente a minha. Conto ainda voltar a este assunto que considero sério demais para que possa passar como um fait divers. Não dominando nem de longe nem de perto os cãnones de apreciação das obras de arte do pintor Luís Furtado e sendo um mero curioso não posso deixar de dizer que a obra que o mesmo “retirou” sem mágoa é brilhante.
    Será que o Luís Furtado considera que o reconhecimento da qualidade de um pintor se mede pelos prémios que lhe são atribuídos? Esse é um critério importante na vida de um criador? Fica a questão pois respostas eu não tenho…

  13. anónimo

    Amigo João Martins. Vou tentar, (em explicações simples) responder-lhe às suas “inquietações” relacionadas com a “minha arte”. Estou, (mas estou mesmo) nas tintas para honrarias, prémios, entrevistas, elogios,notícias em jornais etc. Muito me honra, ser um “bom profissional”, que é o que mais me interessa. Se eu tenho retirado os outros 2 quadros por não estar de acordo com o galerista, possivelmente não teria vendido os quadros, assim sendo, restar-me-ia bater-lhe à porta para sustentar a família. Por acaso o meu amigo não me arranja pra aí um Mecenas, para eu poder fazer o que me der na real gana, sem “ofender” o meu semelhante, nem estar a conviver, nem a pactuar com a “censura”? Mesmo assim, não sei se o Mecenas aceitaria a minha “loucura”. Criador amigo, só conheço uma… a “Mãe” Natureza, que é a coisa mais perfeita que há, nela, não encontro aberrações, e se as há, não deixam de ter a sua beleza. Cumprimentos. L. F.

  14. Joao Martins

    Caro amigo anónimo, não é a sua obra que me “inquieta” pois outros serão mais ajuízados do que eu para a apreciar. Pela minha parte o que me preocupa é mesmo a “censura” e o facto por exemplo de quem quiser expôr em nas galerias em Loulé vai ter que impôr “limites” à sua criação para depois não me vir bater à porta para sustentar a família. Esse é precisamente o grande problema. Acabo de ler uma obra prima do escritor russo Nikolai Gógol, do século XIX, intitulada “O Retrato” e o drama que refere da “escolha” entre produzir para vender ou criar para a eternidade sem constrangimentos de mercado ou outros que tais já lá estava e hoje penso que é mais forte do que nunca. Mais uma razão para nenhum edil meter a “patinha” nas exposições. Quem quiser vir a Loulé adapte-se ao gosto estético e aos padrões morais e religiosos do edil louletano. Esse é o drama.
    Ps: O seu quadro da baixa de São Francisco é maravilhoso. Eu cresci naquele espaço que retrata. Aquele “retrato” faz parte da minha identidade.
    Cumprimentos e peço desculpa por algum desagrado que possa ter sentido na troca de palavras mas aqui o que verdadeiramente me incomoda é o “censor”.
    João Martins

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