Escola, hoje!


Pouco se fala de Ensino neste blogue… e, hoje vamos fazê-lo através de uma jornalista!! Talvez se entenda porque não rejubilamos com o Livro da Sr. Ex-Ministra:

“Pergunto-me muitas vezes como é que é possível um professor não ter o
controlo da sala de aula. Como é que é possível? Se fosse eu… A
minha experiência com crianças e na qualidade de “professora” é
diminuta e feita em circunstâncias muito especiais, de maneira que me
parece que se eu consigo, qualquer pessoa consegue!
Muito enganada. Há dias lia sobre uma professora de uma determinada
escola de Lisboa que desistiu de dar aulas quando um aluno se dirigiu
a ela e espetou um murro com imensa força contra o quadro, mesmo ao
lado da sua cabeça. Nem de propósito, nesse mesmo dia passei à porta
dessa escola e vivi uma situação que me recordou a docente, a
diferença é que os murros foram dados no meu carro e eu estava dentro
dele.
Os miúdos vinham descontraidamente no meio da estrada, com dois
passeios vazios, de um lado e do outro e eles calmamente,
vagarosamente, e eu, de frente para eles, cautelosa não fosse
atropelar algum porque nenhum se desviava. Com o desafio nos olhos e a
boca num meio sorriso lá vinham eles na minha direcção e eu já com o
carro completamente parado, à espera que passassem de uma vez. Eram
uma dezena, todos rapazes, alguns pequenotes, mas a maioria enormes.
Eis que, quando passam começam a bater no capot e nos vidros,
imediatamente apito-lhes e começo a andar, com cautela para não os
atropelar, mas o meu cérebro envia-me mensagens diferentes: de um lado
diz-me “calma, Bárbara, calma, eles são maiores do que tu mas são
menores, não atropeles nenhum”; do outro a indignação verbalizada com
uns “estúpidos, não têm educação, não merecem nada, não percebem nada,
não se ajudam a si próprios e depois espantam-se quando tomamos a
parte pelo todo e chamam-nos racistas e sentem-se vítimas da
sociedade, idiotas”, ok, mentalmente também os mandei para uns sítios
impróprios.
Mais à frente, um grupo de miúdas, com o mesmo desafio no rosto. Há
uma que dança no meio da estrada, virada de costas para o carro,
rodopiando e rindo, outra que espeta a perna em direcção ao veículo,
desvio-me como posso, não lhes toco. “Anormais”, murmuro entre dentes,
com as janelas fechadas e um calor de morrer.
E voltei a lembrar-me da professora daquela escola, dos professores
que aturam estes miúdos diariamente. Dos que têm sorte ou jeito e
conseguem estabelecer pontes com eles; dos que passam mais de metade
da aula a tentar sentá-los e acalmá-los, dos que têm esperança de
contribuir para a diferença, dos que já entregaram as armas e só
querem que o dia acabe, dos que também se passam e agridem os alunos.
Tento pôr-me no lugar destes professores, não consigo.
Em muitos destes casos, os professores perderam, a escola perdeu, a
sociedade perdeu. Os miúdos são os que mais perderam mas não sabem,
nem querem saber. O que fazer com eles?”

Bárbara Wong, jornalista do Público

4 comentários

Filed under Cidadania, Ensino, Juventude, Política Nacional, ssebastiao

4 responses to “Escola, hoje!

  1. Gabriela

    Uma colega minha ofereceu-me hoje o livro da Ex-Ministra. Não sei portanto o que consta do mesmo para além de alguns elogios de Professores Universitários que já li. Sei apenas que apesar dos ódios que despertou em muita gente neste país, demonstrou também que quem pretende mexer alguma coisa seja em que sector for está arriscado a ser trucidado. Os que nada fazem e nada mudam, saem pela porta da frente sem que contudo alguém lhes tenha fixado ao menos o rosto. Mal empregados vencimentos.

  2. Merkhabala

    Será que ainda não entenderam que o que está mal é o sistema de ensino…!!!! Há muito tempo,até demais, que deixou de se adequar aos jovens e crianças de hoje, a começar pelo ensino primário e pré-primário… Cada vez mais as escolas têm um papel preponderante no ensino e educação destas crianças até porque o tempo que os pais têm disponivel para executar essa função é cada vez mais reduzido devido a diversos factores, óbvios acho eu… Isto já é um problema que se vem a desenvolver-se forma mais acentuada há duas ou três gerações, por isso o que se tem vindo a assistir não passa de uma bola de neve que só agora começa a mostrar de forma mais visível os problemas que tem vindo a acumular… Vivemos numa sociedade onde quem grita mais alto é quem reina, onde não há respeito por nada nem por ninguém a não ser que essa pessoa tenha gritado muito mais que os outros e espezinhado muito mais que os outros e o problema reside na forma como esta foi ou será educada/ensinada… Temos um sistema de ensino para massas estilo “fast food” que tem que servir para o menino e para a menina onde não é feita a selecção individual de necessidades nem aptidões e aqueles que não se adaptarem a este método são marginalizados e rotulados de burros, quando a grande maioria nem o é, só não foram estimulados da forma correcta… Infelizmente este método de ensino adequa-se apenas a uma ínfima percentagem de jovens, todos os outro serão empurrados para uma rotulagem que no caso acima descrito criou o burro que deu o murro no quadro, ou os burros que bateram no vidro do carro… Cabe ao Ministério da Educação e mais ainda a quem está responsável por transmitir essa educação às crianças nas escolas (professores e auxiliares) o dever de mudar o sistema de ensino no nosso país… (Falo por nós, mas o problema é mundial) Provavelmente será do interesse de muitos que as coisas assim se mantenham e se continue a propagar a ignorância nas nossas escolas, uma sociedade de burros é muito mais fácil de controlar e fazendo um link com o post anterior mais fácil de se chipar… O conhecimento é a melhor arma do homem, mantendo o desinteresse dos jovens pela educação manter-se-á também afastada a hipótese d’estes poderem vir a questionar certas decisões de quem governa o mundo… Triste, não é!!???

  3. Anónimo

    Onde tirou a foto? Conheço bem os miúdos da mesma!

  4. A amiga Anónima sabe que esta imagem, não a “tirei”, captei-a!
    E por razões várias, primeira delas, representar o interesse pelo saber e participação empenhada mesmo em contexto de aprendizagem informal, representa a certeza de que pode haver Esperança na Escola!
    Rose; já temos falado sobre pedagogia e, em muitos aspecto concordamos, arrisco até a achar que concordará com a escolha destas silhuetas esperançosas, que tu bem conheces… Claro! Não desistas, há sempre quem goste de Aprender!

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