O Essencial…


“Contei meus anos e descobri que terei menos tempo para viver daqui para a frente do que já vivi até agora.
Tenho muito mais passado do que futuro.
Sinto-me como aquele menino que recebeu uma bacia de cerejas.
As primeiras, ele chupou displicente, mas percebendo que faltam poucas, rói o caroço.
Já não tenho tempo para lidar com mediocridades.
Não quero estar em reuniões onde desfilam egos inflamados.
Inquieto-me com invejosos tentando destruir quem eles admiram, cobiçando seus lugares, talentos e sorte.
Já não tenho tempo para conversas intermináveis, para discutir assuntos inúteis sobre vidas alheias que nem fazem parte da minha.
Já não tenho tempo para administrar melindres de pessoas, que apesar da idade cronológica, são imaturos.
Detesto fazer acareação de desafectos que brigaram pelo majestoso cargo de secretário-geral do coral.
‘As pessoas não debatem conteúdos, apenas os rótulos’.
Meu tempo tornou-se escasso para debater rótulos, quero a essência, minha alma tem pressa…
Sem muitas cerejas na bacia, quero viver ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade,
O essencial faz a vida valer a pena.
E para mim, basta o essencial!”

Mário de Andrade
(1893-1945)

O “sebastião” faz suas as palavras de Mário de Andrade!

13 comentários

Filed under Arte, Blogosfera, gente, ssebastiao

13 responses to “O Essencial…

  1. Baby

    Falecido em 45 Mário de Andrade deixou para o futuro palavras certas e que dão que pensar.

  2. Telmo

    Gostei sinceramente do texto de Mário de Andrade, que não conhecia. É bom ler gente que escreve para os seus demais. Uma boa tarde para aí. Telmo

  3. Lina

    É magnífico o texto reproduzido. Também eu gostava de viver ” ao lado de gente humana, muito humana; que sabe rir de seus tropeços, não se encanta com triunfos, não se considera eleita antes da hora, não foge de sua mortalidade,
    Caminhar perto de coisas e pessoas de verdade.

    Lina

  4. Aluna

    O que Nós Vemos das Cousas São as Cousas

    O que nós vemos das cousas são as cousas.
    Por que veríamos nós uma cousa se houvesse outra?
    Por que é que ver e ouvir seria iludirmo-nos
    Se ver e ouvir são ver e ouvir?
    O essencial é saber ver,
    Saber ver sem estar a pensar,
    Saber ver quando se vê,
    E nem pensar quando se vê
    Nem ver quando se pensa.
    Mas isso (tristes de nós que trazemos a alma vestida!),
    Isso exige um estudo profundo,
    Uma aprendizagem de desaprender
    E uma sequestração na liberdade daquele convento
    De que os poetas dizem que as estrelas são as freiras eternas
    E as flores as penitentes convictas de um só dia,
    Mas onde afinal as estrelas não são senão estrelas
    Nem as flores senão flores.
    Sendo por isso que lhes chamamos estrelas e flores.

    Alberto Caeiro, in “O Guardador de Rebanhos – Poema XXIV”
    Heterónimo de Fernando Pessoa

  5. As Vozes...

    Professor Almeida: As Vozes dos outros tomaram a liberdade de transcrever este texto deveras interessante. Aproveito aqui e deixo o comentário do visitante Cesar Ramos que também acho interessante:
    Atentai bem, como houve pessoas que escreveram há já tanto tempo esta realidade que sentimos ir crescendo em cada um de nós e, nunca nos chegou à língua, ou à mão, a ideia de dizer, ou de escrever, tantas verdades (…)

    É de facto essencial, e muito bom, reflectir sobre as sábias palavras
    deste post das Vozes!

    Parabéns pela excelente selecção.

    Aquele abraço.
    César

    (Aproveito para deixar o blog do amigo Cesar pois seria interessante um bom intercâmbio com ele http://alfobre.blogspot.com/

  6. Nora

    É um escritor dos meus preferidos apesar de já não existir entre nós.
    Um dos muitos poemas que tenho sublinhados no seu livro –
    Aceitarás o amor como eu o encaro?

    …Azul bem leve, um nimbo, suavemente
    Guarda-te a imagem, como um anteparo
    Contra estes móveis de banal presente.
    Tudo o que há de melhor e de mais raro

    Vive em teu corpo nu de adolescente,
    A perna assim jogada e o braço, o claro
    Olhar preso no meu, perdidamente.

    Não exijas mais nada. Não desejo
    Também mais nada, só te olhar, enquanto
    A realidade é simples, e isto apenas.

    Que grandeza… a evasão total do pejo
    Que nasce das imperfeições. O encanto
    Que nasce das adorações serenas.

  7. Carmelo

    Li há momentos no Blog o Jumento este artigo de B. B. no D. Noticias. Vale a pena meus senhores.
    O doce embalo de julgar que cumpre um destino tem levado o dr. Cavaco ao incomparável incidente de ser preceptor das nossas vidas. Desde a rodagem de um carro até que os acasos da fortuna e os desacertos da História o empurraram para lugares cimeiros da Nação nada de entendível esclarece o enigma. Nenhum estudo fervoroso e incessante desanuvia a nossa pobre e obnubilada perplexidade. Foi um primeiro-ministro medíocre; é um Presidente da República sem estofo. Quando fala, o discurso é ambíguo, desbotado e triste, quando não funesto.

    Acontece vezes de mais. Uma delas foi há poucos dias, numa daquelas cerimónias em que senhores consideráveis e visivelmente bem instalados discreteiam sobre a redenção da Pátria e a salvação do povo. Aí, o dr. Cavaco falou. Quando o dr. Cavaco fala, ninguém resiste à sagacidade portentosa das suas meninges.» [DN]

  8. A.Farense

    Depois de aqui ter lido este trecho de bela prosa fui à procura do Mário de Andrade que não conhecia. E pelo que já descobri vou ser ou já sou um novo admirador. A.Farense

  9. Milton

    Professor Almeida que acha da planta que mostra a Praça da República como vai ficar depois das obras veranescas ?

  10. Sr. professor,

    Grande post. Quando seria uma boa altura para lhe comprar 2 ou 3 daquelas t’shirs de recusa do arboricidio?

    Abraços
    João

  11. João; conforme acordado, tenho essas T-shirts guardadas!

  12. Nadia

    O essencial é fazermos o nosso papel enquanto cá andarmos. E o nosso papel é respeitarmo-nos uns aos outros e à Natureza. São palavras gastas mas não há outras ou aliás todas as outras que as substituem levam-nos ao mesmo. Que pena. E parece tão simples. Nadia

  13. Joka

    Mais vale o pequeno texto aqui transcrito no blog, do que cem comentários manhosos do Medina das Carreiras.

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